A BOA SAMARITANA
Ao final dos anos 80, exercia posto funcional, junto a um grupo de medias empresas industriais voltadas para a fabricação de autopeças.
O escritório central das empresas localizava-se nas imediações da Estação Patriarca, do ramal leste do metrô paulistano.
Como contabilista, cabia-me a tarefa de cuidar da documentação fiscal e patrimonial das empresas.
Em uma determinada tarde de verão, em mangas de camisa, dirigi-me ao centro da ci-dade, mas precisamente ao 21º tabelião de notas, para efetuar serviços de registro.
Como se tratava de serviço rápido e urgente, tomei o metrô, descendo na Estação A-nhangabaú, bem próximo ao referido órgão de registros, situado na Rua Xavier de Tole-do, a poucos metros da Praça Ramos de Azevedo, uma das áreas mais movimentada da cidade de São Paulo.
Após subir as escadas que dão acesso à região, atravessei o semáforo instalado na es-quina da Rua 7 de Abril, e dirigi-me ao referido endereço.
Percorrido alguns metros, de parei-me com um afunilamento de calçada, devido ao espaço ocupado por uma banca de jornais.
Ao caminhar entre o vai e vem dos passantes apresados, senti alguém por detrás aliviar minha carteira.
Instintivamente levei minha mão ao bolso, prensando a mão do atrevido ao meu corpo, ao mesmo tempo em que recebia um safanão, empurrando-me para frente.
Novamente, instintivamente levantei os braços em busca do equilíbrio perdido.
Voltei-me rapidamente, mas somente pude notar rostos indiferentes e distantes.
Não havia como parar ao meio daquele turbilhão humano. E afinal para que.
Meio descontrolado, segui em passos confusos em direção ao meu destino.
Ato contínuo aproximou-se de mim uma jovem, que caminhando paralelamente a mim. Dirigiu-me a palavra e perguntou.
- O que foi tio levaram a sua carteira?
Respondi que sim, ao que ela argumentou que as crianças de rua eram uma constante ameaça aos transeuntes.
Sem mesmo de tomar a atitude de virar a cabeça para vê-la, arqui que não tinha sido uma criança.
Em uma indagação de surpresa a jovem perguntou.
- Como o senhor sabe?
Respondi...
- Sei por que se fosse uma criança, ela teria me empurrado na altura da cintura, e eu fui empurrado com um golpe na altura do ombro, e a mão era sensivelmente macia.
É tio, a situação esta mesmo problemática, argumentou a jovem.

De fato respondi. Não tem como reagir numa situação dessas, o maior problema, são os documentos e anotações que acabo de perder, conclui.
Após esse a rápido dialogo, segui para o meu destino para concluir a tarefa prevista, retornando ainda não totalmente recomposto ao meu ponto de origem.
Tão logo me fiz presente nas dependências da empresa, qual não foi a minha surpresa.
Rindo, e antecipando a qualquer diálogo, minha colega de trabalho comunicou-me ter recebido um telefonema de uma jovem, avisando ter achado minha carteira, e a mesma tinha sido entregue a um vendedor de doces instalado na esquina da Rua 7 de Abril.
Ato contínuo retornei rapidamente ao local indicado.
Ao chegar, dirigi-me a pequena banca de doces ali existente.
Ao aproximar-me o jovem vendedor pergunto. O senhor é o Sr, Augusto.
-Sim... Respondi.
- Olha... Uma moça achou a sua carteira e pediu-me para devolvê-la ao senhor.
- Ela deixou o recado que retirou somente o valor de um lanche.
Ao pegar a carteira das mãos do rapaz, logo percebi em uma rápida verificação que a mesma estava simplesmente da forma usual.
Ao contínuo, retirei o valor que a mesma continha, e entregando-o ao vendedor, reco-mendando que o mesmo fosse entregue a jovem.
Após alguma relutância, em afirmar que não de quem se tratava, acabou por aceitar a incumbência.
Muito provável a mesma estaria bem próximo a nos observar. Imaginei.
Não chequei a ver a jovem, nem mesmo um olhar cheguei a dirigir-lhe, mas senti no seu ato, um ser humano carente e mal orientado, em busco de um futuro que a meu ver, a-presentava-se incerto.
Por onde andará essa jovem? Hoje senhora.
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